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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Nossa biblioteca ao ar livre


Junior, que estava morando em Brasília na época, soube de um projeto interessante que rola por lá. Ele consiste essencialmente em espalhar estantes pela cidade para que qualquer interessado possa pegar e levar pra casa o livro que quiser.

Não demorou para Junior ser tomado por uma vontade de executar a mesma ideia em Teixeira. Ele entrou em contato com os amigos leitores da cidade e contou o que pretendia fazer. Muitos se dispuseram a colaborar e uma pequena fração desses se reuniu para ir um pouco além das palavras.

Começamos a coletar doações de livros e a levantar fundos para a construção da nossa estante. Num primeiro momento pensamos em montar uma tenda durante as festas juninas e assim aproveitar a oportunidade de divulgar a ideia com os turistas que visitam a cidade nessa época. Conseguimos apenas montar uma bancada, mas os resultados surpreenderam até os otimistas. Fizemos vários empréstimos, ganhamos alguns livros e a iniciativa foi bastante elogiada.





Depois dessa primeira experiência, fizemos um balanço e pudemos alinhar melhor as nossa expectativas com relação ao futuro do projeto. A ideia da estante foi amadurecendo e tomando nova forma. Descartamos a possibilidade da clássica estante de madeira por conta da exposição a sol, chuva e da pouca proteção que ela ofereceria aos livros. Novos voluntários juntaram-se ao grupo e foi justamente um desses novos voluntários que transfomou um dos nossos planos em algo concreto. Adailton é dotado de uma capacidade de execução excepcional. Diferentemente do resto da turma, ele não tem dificuldade nenhuma em ir além dos rascunhos e especulações.

A par do que já havíamos planejado, Adailton começou a dar suas sugestões e a pensar em como chegaríamos ao nosso objetivo: a estante propriamente dita. Considerando a localização e as condições às quais a estante ficaria exposta, Adailton apontou o melhor material para o trabalho, calculou quanto dele precisaríamos e quanto tempo ele levaria para transformar a matéria prima em arte final. Resultado:



Eu não sei dizer se é por conta do meu envolvimento com o projeto, mas eu não consigo considerar o trabalho de Adailton como ordinário. E lembre-se que foi feito voluntariamente!

Há também as dificuldades que enfrentamos pra manter o projeto caminhando. A que mais me incomoda é a tendência que a pessoas tem de acreditar que só se doa o que não serve para si. Fico muito chateado quando recebemos um livro velho e mal cuidado como doação. E pior é imaginar que o doador acredita que está mesmo colaborando!

O problema do lixo em formato de livro não é exclusivamente nosso. Através do Menos um na Estante descobri que no Recife existe um projeto parecido com o nosso e que ele enfrenta algumas situações semelhantes:

"(…) Muita gente ligou ou foi à biblioteca para doar o que não serve mais. Sacos e sacos de livros didáticos e paradidáticos que os filhos não precisam, muitos deles riscados. (…) Relatórios de pesquisas de 2002; Manuais de mecânica; coleções grossas de manuais de medicina e termos de psiquiatria, fora os compêndios de álgebra linear; livros escritos em alemão; cadernos usados pelos filhos no ano anterior, com exercícios. Até o 'Guia 4 Rodas 2002' recebemos. A lista, na verdade, seria imensa. (…) O que faz uma pessoa ligar para uma biblioteca comunitária para doar livros, apostilas, cartilhas, coleções,  que não vão servir, em hipótese nenhuma? (…) Em pouco mais de um mês, tivemos um pouco a noção do que representa o “doar” para muita gente. Algo como tirar de casa o entulho."

O post completo, incluindo o lado bom da história, você pode ler aqui.

Vale lembrar que nas entrelinhas existe também um trabalho de conscientização, pois, no nosso caso, os livros ficam disponíveis 24 horas por dia sem nenhuma vigilância. A gente acabou assumindo mais um compromisso que não esperava: O de educar, além dos leitores, também os doadores.

Antes que eu esqueça é bom dar os créditos a quem está dando o sangue pela ideia. Thiago, Mateus, a ONG "Os Cobras" (da qual Adailton faz parte), Hildeberto e especialmente Alan Vital e Marco Aurélio. Esses últimos tem tirado tempo não sei de onde para acompanhar a estante um pouco mais de perto.

É necessário também agradecer a quem apoiou a ideia e fez doações de livros quando o projeto ainda se resumia a planos. João Matias, Nabila, Bruno Santos, Betomenezes e Maria Valéria Rezende doaram livros novos e bem cuidados.

Pra finalizar, uma frase do Samarone Lima, que escreve no Estuário: "Se queres doar algo, para uma biblioteca, asilo, orfanato, para vítimas de enchente, de terremotos, que seja o bom e o belo, mesmo que pouco. É o que penso."

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sobre satisfação

Logo que foi anunciado o show do Pato Fu aqui em João Pessoa, comprei minha entrada. Paguei R$60. Me apressei porque não queria nem pensar na ideia de perder a chance de vê-los ao vivo. Dias depois uma amiga falou: "A entrada tá custando R$30. Fail pra você".

A reação mais comum das pessoas é pensar algo como: "Que droga! Se eu tivesse esperado um pouco mais...". Há dois anos eu teria reagido assim. Hoje não. É bastante óbvio que pensar sobre o dinheiro que eu poderia ter economizado não vai trazê-lo de volta, mas foi preciso alguém me dizer pra eu poder entender que saio mais satisfeito de casos assim se não pensar nas possibilidades.

Em economia existe um termo chamado sunk costs. Ele serve para designar os investimentos que não podem ser recuperados. E "recursos" não quer necessariamente dizer "recursos monetários". Você já deve ter terminado de ler um livro somente por já ter passado da metade. Ficou com aquela ideia de "Se eu não terminar agora vou ter perdido o tempo que investi até aqui. Então vou até o fim". E é tomando decisões como essas que você acaba, ao contrário do que espera, desperdiçando mais ainda os seus preciosos recursos. Sunk costs. Melhor teria sido abandonar a leitura do livro ruim no meio.

Foi lendo The Paradox of Choice, de Barry Schwartz, que descobri o quanto sunk costs pesam na hora de decidir entre deixar ou continuar algo. O mais assustador é ver o quanto é comum se apegar a algo sem futuro somente por já ter investido demais na tal coisa. No livro, aprendi muito sobre satisfação. Descobri que algumas das minhas atitudes diante de certas situações comprometiam a satisfação que eu poderia tirar da experiência. Devagarinho fui tentando mudar.

Num dos capítulos se fala sobre dois grupos que o autor chama de Satisficers e Maximizers. O primeiro é formado por pessoas que, por exemplo, ao sair pra fazer compras estão dispostas a aceitar algo que não é exatamente o que queriam, mas que é bom o suficiente. Os maximizers são mais rigorosos, estão dispostos a investir mais tempo e mais energia na busca do, seja lá o que estiverem procurando, ideal. Para esse segundo grupo é comum ter que gastar muitos recursos (seja tempo, dinheiro, energia ou uma combinação de todos) para encontrar o que se procura. E ao final da epopeia nem sempre se está satisfeito o quanto se espera. Sem falar que é possível que esse produto/serviço ideal não esteja disponível.

Essa é apenas uma característica que diferencia as pessoas que buscam a perfeição das que se vivem mais satisfeitas. Continuando a leitura, já com a pulga atrás da orelha quanto a qual grupo eu pertenceria, vi que há um pequeno teste no meio do livro. Nele, umas das questões que mais ficaram martelando na minha cabeça foram algo como: "Você tem hábito de classificar coisas apontando qual o melhor, qual o pior, etc? Costuma fazer lista dos melhores livros, melhores filmes, melhores discos?". Quando li essa segunda, tive a impressão de que o livro estava falando diretamente comigo. Sou um grande adepto desse tipo de lista. Até publiquei uma aqui no blog, mas não sem ficar insatisfeito ao final. Tinha planos para escrever outras, mas vi que isso não me faria muito bem, então desisti.

Essas perguntas me chamaram tanto a atenção porque é comum me ouvir fazê-las nas primeiras conversas que tenho com alguém que acabei de conhecer. Especialmente "Quais são seus livros/filmes/discos favoritos?". Vai ser fácil notar isso se você me conhece há pouco tempo. Os amigos mais antigos também já devem ter notado.

Talvez eu esteja até dando a impressão errada do livro aqui. Estou falando de alguns pontos específicos enquanto o autor se preocupa muito mais em dizer que escolhas demais são prejudiciais à nossa satisfação. Mas cito aqui exatamente os pontos que mais me marcaram e fizeram com que eu considere The Paradox of Choice um dos livros mais importantes que li no ano passado.



PS: Fui pra o show do Pato Fu e foi fantástico. Melhor do que eu esperava. A amiga que citei no começo do texto não foi. Achou caro. Poucos dias depois me disse que estava arrependida. Qual a decisão mais inteligente a tomar agora? Esquecer. Nada de remoer oportunidade perdida. Assim a gente vive mais satisfeito.

domingo, 3 de julho de 2011

1984

Li 1984 recentemente. Além da sensação comum a quem lê o livro, fiquei com outra. Nas cenas onde O'Brien aparecia eu sentia que o rosto dele me era familiar, mas não conseguia olhá-lo diretamente. A ideia que eu tinha do rosto era característica do que é percebido somente pela visão periférica: presente, mas indefinido. A sensação me atacava sempre que o personagem aparecia e durou até depois do fim do romance. Fiquei matutando, na esperança de descobrir quem era, no mundo real, o dono da face fictícia.

Só ontem à noite fiz a descoberta.



Christoph Waltz, que fez Hans Landa em Bastardos Inglórios, é a cara que a minha mente deu a O'Brien.

sábado, 28 de maio de 2011

Estante

Tudo começou com um retweet do @tarrask se autoprovendo. Ele recentemente foi convidado a escrever um post, para o blog de uma moça que não conheço, falando sobre o que há na estante dele. O post, apesar de descambar pra outro lado, saiu melhor que a encomenda. Ele acaba falando mais sobre as vantagens e desvantagens de trocar o papel por um e-reader do que sobre a bendita estante.

Fiquei com muita vontade de comprar um Kindle, mas pensando um pouco mais vi que talvez seja mais negócio comprar um iPad mesmo. Vão lá ler o texto. Passou no controle de qualidade desse que vos escreve.

Se você leu o post, sabe que a ideia de convidar pessoas pra falar sobre suas estantes não nasceu no menos um na estante, mas sim no de bubuia na bubuia (nome exótico, não?). Lá, além dessa seção, chamada de "minha estante" existem outras como: "música do dia", "stop motion, i love u", "indico" e mais algumas. De todas as que encontrei por lá as minhas favoritas foram "minha estante" e "a tatoo que eu queria ter feito".

Eu não sou fissurado por tatuagens. Me considero mutante demais pra coisas do tipo. Então o que vi de interessante em "a tatoo que eu queria ter feito"? Exatamente a outra metade da ideia: o que eu queria ter feito. Talvez eu crie até uma seção "Posts/blogs que eu gostaria de ter escrito". Quanto à estante, gostei tanto dessa ideia que eu ficaria feliz de ter pensado nela antes. Claro que não acredito que o de bubuia na bubuia foi o primeiro lugar a pensar e/ou executar isso. Mas foi o primeiro lugar onde vi, ora. Então podem esperar, em breve, um post com algumas fotos e comentários sobre o meu porta-livros. Porque, afinal de contas, blog é assim mesmo.

domingo, 17 de abril de 2011

Sylvia Plath

Sylvia Plath foi uma poetisa estadunidense. Escreveu "O Colosso e Outros Poemas", "Ariel" e "A Redoma de Vidro". Ganhou o Pulitzer de poesia em 1982. Mas esses não são os fatos notáveis da sua vida.

No começo da década de 1950, Plath graduou-se com láureas e foi morar em Nova York. Viveu alguns momentos ruins que inspiraram grande parte do que foi escrito em "A Redoma de Vidro". Fez sua primeira tentativa de suicídio da qual se tem notícia. Super dose de pílulas para dormir. Conheceu Ted Hughes, um poeta que admirava, e com ele se casou.

Em 1958, participou de um seminário de escrita criativa com Robert Lowell, ganhador de dois Pulitzer (e maníaco depressivo). Conheceu Anne Sexton, que também tinha tendências suicidas (e ganharia o seu Pulitzer em 1967), o que garantia a abertura para falar sobre o assunto.

Em 1960, nasce Frieda, a primeira filha do casal. Logo em seguida, Plath sofre um aborto da segunda gravidez, o que adicionaria mais um item à lista de assuntos sobre os quais ela escrevia. Em 1961, "A Redoma de Vidro" está terminado. Nicholas, o segundo filho, nasce em 1962. Em julho do mesmo ano, Plath descobre que o marido está tendo um caso com Assia Weville. Plath sofre um "acidente" de carro, que mais tarde confessaria ser uma tentativa de suicídio. Em setembro pede divórcio.

Morando só com as crianças, enfrentando um dos invernos mais frios dos últimos 100 anos, Plath vê sua depressão voltar. Ainda assim, num surto de criatividade, escreve a maioria dos poemas de "Ariel", os mesmos poemas que garantiriam sua fama póstuma.

Em Janeiro de 1963, "A Redoma de Vidro" é lançado. Assinado com um pseudônimo, o livro não recebe muitas críticas positivas.

Numa manhã de fevereiro de 1963, a enfermeira que deveria ajudar a cuidar das crianças não conseguiu abrir a porta da frente da casa de Plath. Com a ajuda de um homem, a enfermeira entrou e encontrou Plath na cozinha, com a cabeça dentro do fogão, que estava com o gás aberto. As crianças estavam em segurança, num quarto que tinha a porta cuidadosamente selada por roupas e toalhas molhadas.

A vida de Sylvia Plath acaba aqui. Mas não sua história. Ela escrevia no seu diário desde os 11 anos de idade e manteve o hábito até os seus últimos dias de vida.

Em 1982 foram publicados os diários que documentavam quase toda a vida adulta de Plath. De 1950 até 1962. Ted Hughes, seu ex-marido, foi um dos editores de "The Journals of Sylvia Plath". "Quase" porque Hughes destruiu a parte final dos diários. Desde o inverno de 1962 até a morte da poetisa. Ele argumentou dizendo que não queria que os filhos lessem aquilo e que esquecimento era essencial para a sua sobrevivência. Vale lembrar que na ocasião da morte dela, Hughes declarou que estava devastado, que também havia morrido.

Aqui acaba a história de Sylvia Plath. Mas você lembra dos outros nomes?

Assia Weville: A amante de Hughes, foi encontrada morta em sua casa. Estava na cozinha, deitada num colchão com sua filha de 4 anos, Shura Weville. As janelas e portas estavam fechadas e o gás do fogão estava aberto.

A semelhança entre as mortes de Plath e Weville levantou questões sobre a atitude que Hughes teria como pai e marido.

Anne Sexton: A amiga que conheceu no seminário morreu em 1974. Tomou uma dose de vodka, trancou-se na garagem de casa, ligou o motor do carro e esperou. Causa mortis: Intoxicação por monóxido de carbono. A mesma de Plath e Weville.

Segundo Sexton, a tentativa de suicídio descrita em "A Redoma de Vidro" é exatamente igual à primeira tentativa que Plath fez.

Nicholas Hughes: Enforcou-se em casa. Segundo Frieda, ele andava deprimido.

Por que eu estou escrevendo isso? Tudo o que apareceu aqui no post, até agora, pode ser encontrado na wikipedia. Escrevi porque as angústias de Sylvia eram muito semelhantes às minhas. Veja:

"I can never read all the books I want; I can never be all the people I want and live all the lives I want. I can never train myself in all the skills I want. And why do I want? I want to live and feel all the shades, tones and variations of mental and physical experience possible in life. And I am horribly limited." Sylvia Plath

Espero que o meu final seja diferente.

PS: Conheci Sylvia Plath aqui.

terça-feira, 22 de março de 2011

Tribes - Seth Godin (Parte 3 - Final)

O post anterior não ficou maior do que está porque a próxima história que eu contaria nele tinha muito a ver com uma notícia que me chegou pelo twitter enquanto eu o escrevia. Sem mais delongas:

"Isaac Newton was totally, fantastically wrong about alchemy, the branch of science he spent most of his carrer on. He was as wrong as a scientist could be. And yet , he's widely regarded as the most successful scientist and mathematician ever."

"The secret of being wrong isn't to avoid being wrong.
The secret is being willing to be wrong.
The secret is realizing that wrong isn't fatal.
The only thing that makes people and organizations great is their willingness to be no great along the way. The desire to fail on the way to reaching a bigger goal is the untold secret of success."

Você sabia que Angry Birds foi o 52º jogo desenvolvido pela Rovio? Pois é. Nem eu. Essa foi a notícia que me impediu de continuar escrevendo. Já pensou se esse pessoal tivesse medo de falhar? E se eles tivessem desistido depois que a primeira coisa deu errado? No comecinho do post o pessoal fala um pouco dos perrengues que enfrentaram durante o desenvolvimento do jogo. Não foi fácil, mas tenho certeza que dificilmente existiria o sucesso sem os fracassos anteriores.

E pra finalizar esse combo de Seth Godin, só mais duas citações do Tribes:

"If you hear my idea but you don't believe it, that's not your fault; it's mine.
If you see my new product but you don't buy it; that's my failure, not yours.
If you attend my presentation and you're bored, that's my fault too.
If I fail to persuade you to implement a policy that supports my tribe, that due to my lack of passion or skill, not your shortsightedness.
If you are a student in my class and you don't learn what I am teaching, I've let you down.
It's easy to insist that people read the manual. It's really easy to blame the user/student/prospect/customer for not trying hard, for being too stupid to get it, or for not caring enough to pay attention. It might even be tempting to blame those in your tribe who aren't working as hard at following as you are at leading. But none of this is helpful."

Essa última é uma fórmula definitiva para reconhecer um líder:

"What does a leader look like?
I've met leaders all over the world, on several continents, and in every profession. I've met young leaders and old ones, leaders with big tribes and tiny ones.
I can tell you this: leaders have nothing in common.
They don't share gender or income level or geography. There's no gene, no schooling, no parentage, no profession. In other words, leaders aren't born. I'm sure of it.
Actually, they do have on thing in common. Every tribe leader I've ever met shares one thing: the decision to lead."

quarta-feira, 9 de março de 2011

Tribes - Seth Godin (Parte 2)

Esse post é uma espécie de continuação do anterior. Nele eu fiz uma lista com algumas das minhas partes favoritas do livro que acabei de ler. No finalzinho, falo sobre algumas historinhas que o Seth Godin conta. Esse post é sobre essas historinhas.

Tribes começa meio devagar, com um tom puxado pro "eu quero, eu posso". Chega a soar meio auto-ajuda, mas ganha profundidade quando o autor conta uma história de liderança protagonizada por ele mesmo.

Durante a leitura, é impossível não parar pra pensar no quanto daquilo é parte da sua realidade. A primeira vez que me senti assim foi enquanto lia o capítulo chamado "Sheepwalking". Essa é uma palavra que o autor usa para definir o resultado de contratar pessoas que foram feitas para ser obedientes e dar pra elas tarefas que não exigem cérebro e uma certa quantidade de medo pra mantê-las na linha. São pessoas capazes de, por exemplo, ler em voz alta a política da empresa por seis ou sete vezes sem fazer ideia do que aquilo significa. Ou pessoas que executam qualquer tarefa apenas porque o chefe mandou, sem questionar. Fiquei pensando em quanto tempo eu teria durado no meu emprego se meus chefes não suportassem ouvir um "Por que?", um "Não vai funcionar." ou até um "Isso vai dar merda". Não muito tempo.

De toda forma, "Sheepwalking" é a forma que Seth Godin resolveu chamar esse problema das pessoas que aceitam tarefas que poderiam ser feitas por máquinas e que preferem repetir a criar.

A segunda história, a de um capítulo chamado "Como foi o seu dia?", se passa às 4 da manhã no hall de um hotel. Godin estava sem conseguir dormir e aproveitou pra checar seus e-mails. Um casal entra e a mulher sussurra pra seu companheiro: -Não é triste? Mesmo de férias esse rapaz não consegue se livrar do seu e-mail. Não consegue nem aproveitar suas férias.

Nosso querido autor demorou, mas conseguiu perceber porque estava tão satisfeito de estar checando o e-mail no meio da madrugada (atividade que não trocaria por outra senão dormir). Seu trabalho é liderar pessoas. Não são muitas, mas todas estão criando, trabalhando para mudar alguma coisa, para chegar onde querem chegar. E aí então vem uma sequência de frases brilhantes:

"Most people have jobs where they fight change, where they work overtime to defend the status quo. It's exhausting. Maintaining a system in the face of change will grind you down."

"'Life is too short' is repeated often enough to be a cliché, but this time is true. You don't have time to be both unhappy and mediocre. It's not just pointless, but it's painful. Instead of wondering when your next vacation is, maybe you ought to set up a life you don't need to scape from."

Esse trecho é espetacular. Talvez o melhor do livro. Se você ainda não está no emprego dos seus sonhos e isso não te tocou, pode ir ler outra coisa. Mas se você não está feliz com o que faz e está disposto a mudar... Quanto tempo você ainda vai esperar pra mandar o seu chefe chato ir pastar? Releia o parágrafo: "Você não tem tempo pra ser infeliz e medíocre. Não é só despropositado, mas também doloroso." Se os adjetivos "infeliz", "medíocre", "despropositado" e "doloroso" descrevem bem o seu dia-a-dia, é hora de mudar algo, não acha? Eu não sei você, mas eu quero um emprego que me dê saudades dele nas férias. E pra fechar o capítulo:

"The amazing thing is that not only is this short life easier to set up than ever before, but it's also more likely to make you successful. And happy. So how was your day?"

Acho que o post está ficando um pouco longo demais, então em breve eu volto com mais Tribes. Fiquem com mais alguns dos trechos que me chamaram a atenção:

"It's easy to underestimate how difficult it is for someone to become curious. For seven, ten, or even fifteen years of school, you're required to not be curious. Over and over and over again, the curious are punished."

"Once recognized, the quiet yet persistent voice of curiousity doesn't go away. Ever. And perhaps it's such curiosity that will lead us to distinguish our own greatness from the mediocrity that stares us in the face."

"Ultimately, people are most easily led where they wanted to go all along."

quarta-feira, 2 de março de 2011

Tribes - Seth Godin

Recentemente terminei de ler o Tribes do Seth Godin. Ele fala sobre iniciativa, zona de conforto, inovação e especialmente liderança.

Foi divertido, proveitoso e rápido. Eu já ouvira falar dele antes, alguns amigos recomendaram artigos dele e vez ou outra surgia uma referência perdida aos seus livros. Mas o que me fez decidir ler agora foi o seguinte:

Estava eu conversando com Danilo sobre a possibilidade de João Pessoa ser um dos lugares do próximo Global Game Jam quando, do nada, ele solta:

Danilo: ultimamente tenho pensando muito no livro do seth godin, we need you to lead us. tem que ser herege ou não se faz nada na vida. seth godin mother fucker
Eu não sei dizer o que estalou na minha cabeça nesse instante, mas o fato é que fiquei com muita vontade de ler o livro. Ao longo dele, encontrei muitas coisas dignas de nota. Como não era meu, não pude marcá-lo nem riscá-lo. Então a alternativa que encontrei para quando quiser reler a parte mais substancial foi escrever esse post. Então aí vai uma seleção de frases marcantes do livro:

"Many people are starting to realize that they work a lot and that working on stuff they believe in (and making things happen) is much more satisfying than just getting a paycheck and waiting to get fired."

"People yearn for change, they relish being part of a movement, and they talk about things that are remarkable, not boring."

"There doesn't seem to be a shortage of ideas. Ordinary folks can dream up remarkable stuff fairly easily. What's missing is the will to make ideias happen."

"In a battle between two ideas, the best one doesn't necessarily win. The idea that wins is the one with the most fearless heretic behind it."

"Change isn't made by asking permission. Change is made by asking forgiveness, later."

"There's a small price for being too early, but a huge penalty for being too late."

"In organization after organization real leadership rarely comes from CEO or the Senior VP of leadership. Instead, it happens out of the corner of your eye, in a place you weren't watching."

"There's no record of Martin Luther King Jr. or Gandhi whining about credit. Credit isn't the point. Change is."

"People don't believe what you tell them. They rarely believe what you show them. They often believe what their friends tell them. They always believe what they tell themselves. What leaders do: they give people stories they can tell themselves. Stories about the future and about change."

"The very nature of leadership is that you're not doing what's been done before. If you were, you'd be following, not leading."

"Once you choose to lead, you'll be under great pressure to reconsider your choice, to compromise, to dumb it down, to give up. Of course you will. It the world's job: to get you to be quiet and follow. The status quo is the status quo for a reason."

No livro há também algumas historinhas que ele conta, mas são um pouco mais longas pra colocar aqui. Talvez cada uma das melhores ganhe um post só seu.

Livro recomendadíssimo pra quem não está satisfeito com as coisas com elas são, para empreendedores e atrevidos em geral.